“Chamou Jesus os doze e passou a enviá-los de dois a dois, dando-lhes autoridade sobre os espíritos imundos [Lucas completa: ‘e para efetuarem curas’]. Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, exceto um bordão; nem pão, nem alforje, nem dinheiro; que fossem calçados de sandálias e não usassem duas túnicas [em Mateus está escrito: ‘Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre para os vossos cintos; nem de alforje para o caminho, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão; porque digno é o trabalhador do seu alimento’]. E recomendou-lhes: Quando entrardes nalguma casa, permanecei aí até vos retirardes do lugar [Mateus completa: ‘Ao entrardes na casa, saudai-a; se, com efeito, a casa for digna, venha sobre ela a vossa paz; se, porém, não o for, torne para vós outros a vossa paz’]. Se nalgum lugar não vos receberem nem vos ouvirem, ao saírem dali, sacudi o pó dos pés, em testemunho contra eles. Então, saindo eles, pregavam ao povo que se arrependesse; expeliam muitos demônios e curavam numerosos enfermos, ungindo-os com óleo” [Mc 6: 7-13 (Mt 10: 5-15 / Lc 9: 1-6)].

• Quando Jesus enviou Seus discípulos a pregar em Seu nome, estava dando a eles, e também a nós, diretrizes importantes para a nossa vida como cristãos e discípulos. Quando Ele designou que fossem aos pares, quis reforçar em nós a idéia da união de propósito como um fator importante tanto na evangelização quanto em qualquer ministério que Ele determine para um filho, isto é, nós fazemos Sua obra de uma maneira mais efetiva quando conseguimos comungar numa mesma visão. Quando dois concordarem na terra sobre alguma coisa que porventura pedirem, será concedida pelo Pai que está no céu, pois onde houver dois ou três reunidos em Seu nome, Ele estará no meio deles. Foi Jesus mesmo que disse esta palavra aos Seus discípulos em Mt 18: 19-20. Assim, para nós significa que se um ministério está dividido internamente, sem concordância de propósito, não pode ter sucesso.

• Em segundo lugar, Jesus lhes disse para não levarem nada, exceto o bordão. Não deveriam levar dinheiro, nem duas túnicas, nem bolsas (alforje), nem pão, nem sandálias extras, pois, provavelmente por isso é que vemos a diferença entre os dois evangelhos (o de Marcos e o de Mateus). É lógico que para andarem nas terras pedregosas da Galiléia e da Judéia, os discípulos precisariam de sandálias para proteger seus pés; Jesus mesmo usava sandálias (lembre-se da citação de João Batista: “Disse João ao todos: Eu, na verdade, vos batizo com água, mas vem o que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias; ele vos batizará com o Espírito Santo e com o fogo” – Lc 3: 16). Portanto, assim como a orientação sobre não levar duas túnicas, isso se aplicaria igualmente às sandálias, isto é, não levarem sandálias extras, cujo significado veremos mais adiante. O aprendizado que fica para nós é que: quando nos dispomos a fazer a obra de Deus, precisamos depender inteiramente Dele, não dos recursos humanos para nos suprir. O simples fato de alguém se dedicar única e exclusivamente a este tipo de trabalho, que exige dedicação, abdicação e entrega já lhe dá o direito a um salário, como diz Jesus, pois Sua obra é necessária, para não dizer essencial à humanidade, implicando numa luta constante pelo resgate espiritual de almas. Podemos completar este raciocínio dizendo que as instruções acima resumem a atitude de um verdadeiro cristão para realizar a obra que Ele lhe confiou na terra, seja ela qual for: desprendimento e confiança em Deus. O cristão precisa ir aonde o Senhor mandar, ser uma pessoa desprendida e confiar totalmente Nele. Fazendo a obra, ele é digno do seu salário, como diz Jesus, e não precisa se preocupar com o que semeou; receberá multiplicado. O que semeamos na seara do Senhor será revertido em nosso próprio benefício e é Ele mesmo que se responsabiliza pelo suprimento das nossas necessidades.

Passo a passo:
a) Ele os orientou a levar junto com eles um bordão, pois o bordão, também usado pelos profetas e pelos pastores, era utilizado para defesa das ovelhas e simbolizava autoridade. Portanto, quando nos colocamos a serviço do Senhor para realizar Seu trabalho, precisamos ter conosco Sua autoridade.
b) Jesus também deu aos Seus discípulos outras diretrizes como, por exemplo, não levarem bolsas nem dinheiro nem pão. Isso significa que não devemos nos firmar nos recursos humanos para a nossa sobrevivência nem dependermos das regras e valores do mundo, mas dos valores de Deus. O dinheiro é necessário para todos nós, não resta dúvida, entretanto, o significado desta ordenança do Senhor seria não usarmos da força do mundo para conquistar nossas vitórias. O dinheiro é a força que age no mundo para nos fazer comprar e adquirir o que precisamos e, quando ele nos falta, nossa vida fica limitada, pois até as nossas necessidades básicas não podemos mais suprir; quanto mais realizar qualquer tipo de chamado ministerial! Entretanto, o ensinamento mais profundo é que o dinheiro nos ajuda a evangelizar, porém, não compra vidas para o reino de Deus.
c) A bolsa é símbolo dos nossos recursos interiores, ou seja, do que temos e sabemos para fazer qualquer trabalho. Jesus não queria que eles levassem seus conhecimentos nem sua sabedoria humana, muito menos sua experiência mundana para cumprir a missão que Ele lhes havia dado, entretanto, eles deveriam depender da Sua sabedoria e da revelação particular do Seu Espírito para cada caso, confiando única e exclusivamente Nele, ao invés de seguir “cartilhas” pré-determinadas. Assim, poderiam descobrir a força que havia dentro deles.
d) Também lhes disse para não levarem pão, ou seja, o alimento da carne, apenas o alimento espiritual, pois nada lhes faltaria, materialmente falando, caso seguissem essas diretrizes à risca. O Senhor mesmo levantaria pessoas para supri-los nas suas necessidades físicas; se estivessem preocupados com isso, não teriam tempo nem capacidade de se concentrarem na parte espiritual, que era o objetivo da missão. Assim, nós não negamos a nossa necessidade humana de suprimento, mas não devemos ficar totalmente preocupados com ela, senão, não poderemos nos concentrar nas coisas de Deus. Por isso, o jejum coloca nossa carne num patamar de silêncio e calma para que o espírito possa estar sintonizado com as coisas espirituais. O ensinamento básico aqui é que todo aquele que deseja ser servo de Deus deve depender mais do Espírito do que da sua carne para fazer as coisas.
e) Jesus lhes ordenou também que fossem calçados de sandálias, porém, não levassem sandálias extras e não usassem duas túnicas. Aqui, Ele fala de estar na dependência de Deus e não fazer estoque como uma medida de segurança, pois isso minaria a fé no maná divino. Em segundo lugar, as sandálias falam de ocupação, de bênçãos materiais e autoridade, assim como tirá-las significa se render, sinal de submissão e respeito; e as túnicas falam de proteção espiritual e de posicionamento moral diante da vida. Como está escrito em Ef 6: 15 sobre as sandálias do evangelho da paz, nós devemos caminhar sobre uma única direção que é o evangelho da paz que nos foi dado por Jesus. A nossa direção não é mais a palavra nem o conhecimento do mundo, e sim a palavra viva do Espírito que nos faz levar a paz e a verdade aonde formos. Dessa forma, não podemos ter duas palavras: a de Deus e a do mundo vivendo concomitantemente dentro de nós para nos direcionar. Só uma delas vai ter que prevalecer; e um servo de Deus só pode ter uma única direção para seguir: o evangelho. A túnica também só pode ser uma, ou seja, nossa vestimenta só pode ser espiritual, nossa aparência deve ser a do próprio Jesus, nossa maneira de viver só pode ser uma, ao invés de vivermos uma hora de um jeito, outra hora de outro. Não podemos ter “duas caras”, não podemos pregar o que não vivemos, não podemos “acender uma vela para Deus e outra para o diabo” como se diz por aí; precisamos ser, sim, coerentes com a nossa fé. Não podemos nos cobrir com sentimentos contrários ao amor de Deus, pois senão viveríamos com as roupas sujas do pecado. Nossas vestes devem ser de santidade, ou seja, devemos estar sempre cobertos com o sangue de Jesus, que é derramado sobre aqueles que Lhe são fiéis, e Ele, por sua vez, os justifica de todo pecado e os livra de toda acusação do inimigo.
• Em terceiro lugar, a bíblia fala que eles foram orientados a permanecer numa casa até o momento de se retirar dela e deveriam saudá-la ao entrarem. Entretanto, se não os recebessem ali, deveriam sair e sacudir os pés para tirar o pó das suas sandálias. Isso quer dizer que, ao entrarmos em algum lugar ou em contato com outro semelhante devemos lhes desejar a paz do Senhor como uma forma de preparar o nosso caminho para o que vamos realizar em nome de Jesus. Ele também disse que, se ali houvesse um filho da paz, ela repousaria sobre ele; entretanto, se a casa não fosse digna, Sua paz voltaria para os discípulos. Para nós isso significa que, ao sermos por Ele enviados a uma vida ou a um lugar, devemos deixar que a Sua paz seja o “trilho” à nossa frente para as coisas começarem a se desenvolver; entretanto, se notarmos que ali há uma recusa em receber a palavra de Deus, não devemos insistir nem nos irar com a situação, pois a nossa paz ninguém poderá tirar de nós. A paz do Senhor só repousa sobre os que a querem e sobre os que desejam exercitá-la também. Num ambiente de contenda, divisão, ódio e rejeição não há lugar para o relacionamento amoroso que vem de Deus. Corações contenciosos, que vivem para a separação e a divisão, não permitem que haja uma ação do Espírito levando à reconciliação. Os discípulos deveriam ficar em um lugar até que a obra de Deus fosse cumprida ali, isto é, devemos semear e investir em certas vidas e em certos lugares até o Senhor cumprir Seu plano como, por exemplo, num emprego onde somos colocados por Ele para realizarmos algo até que tudo o que Ele deseja com a nossa vida ali termine. A bíblia diz também que, se não os recebessem nalgum lugar, deveriam sair e sacudir o pó dos pés em sinal de protesto. Naquela época, quando uma pessoa não se sentia bem recebida em alguma terra, como um sinal de que não queria levar consigo a contaminação daquele lugar, ao sair ela sacudia o pó das suas sandálias. Portanto, se somos levados a algum lugar onde nos rejeitam (portanto, rejeitam a palavra de Deus) e preferem continuar na idolatria e na mentira em que estão, nossa parte é sair e deixar o mal ali, sem nos contaminarmos com ele, pois Deus mesmo se encarregará da situação. Aquelas vidas tiveram a chance de receber a luz, mas preferiram continuar nas trevas, o que não mais será da “nossa conta”, pois a nossa parte foi feita. Um pouco mais adiante, em Lc 10: 1-16, quando Jesus envia os setenta e lhes dá orientações semelhantes, o evangelista escreve: “Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim; e quem vos rejeitar, a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar rejeita aquele que me enviou” (Lc 10: 16). Isso quer dizer que quando Jesus nos envia de alguma maneira a pregar Sua palavra, se alguém a receber será salvo, pois o receberá também; porém, quando rejeitam o que dizemos, estão rejeitando não somente a Ele como, igualmente, o Pai. Por isso, perdem a chance da salvação.
Embora com as dificuldades que pudessem ter enfrentado, a bíblia diz, principalmente quando fala sobre a volta dos setenta (Lc 10: 17-20), que os discípulos tiveram sucesso e muitas curas foram realizadas por toda a parte. Por isso, conosco também vai haver sucesso e vitória quando nos dispomos a servi-lo, pois é o próprio Deus que nos incumbe dessa missão.
Experiência prática
A nossa experiência prática vai ser “semear a palavra de Deus”, ou seja, evangelizar pessoas, falar de Jesus, dar testemunho do que Ele tem feito na nossa vida. Não se intimide com o desafio, nem fique pensando que você ainda é novo na fé e não conhece a bíblia tão bem para fazer este tipo de coisa. A bíblia diz que não é por muitas palavras que seremos ouvidos; se isso é válido em relação a Deus, é válido também em relação a pessoas. Não precisamos ser “chatos”; precisamos apenas ter amor e sensibilidade. Para não lançarmos nossa semente numa terra estéril e que ainda não foi arada e, por conseguinte, para não sairmos frustrados de tudo isso, vamos pedir ao Espírito Santo que escolha a pessoa que Ele quer atingir por nosso intermédio e que nos dê a estratégia correta. Às vezes, podemos ser usados através de folhetos de evangelismo; outras, através da ministração da Palavra para quem nos procure com algum tipo de dificuldade; outras vezes, através de um conselho amigo ou de um abraço carinhoso num momento de dificuldade. Pode ser de várias formas, sem ser agressivo, apenas tendo no coração o desejo de ajudar e de ser um canal para que o próprio Deus se manifeste usando nosso espírito, nossa alma e nosso corpo. Lembre-se sempre que não somos nós que fazemos as coisas, mas Deus. Nós somos apenas semeadores da Sua palavra ou, se preferir, “pombos-correio” do Senhor para entregar Seu recado a quem Ele quer. Que Deus o (a) abençoe. Siga em frente e depois, anote a experiência; vai ter uma ótima recordação.

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